terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A particularidade do racismo no Brasil

A PARTICULARIDADE DO RACISMO NO BRASIL

Para oprimir e submeter, especialmente, os negros, o racismo no Brasil não necessitou de regras formais de discriminação, de desigualdade e de preconceito racial.  O racismo como ideologia emprega e se alimenta de práticas sutis, de nuances e de representações que não precisam de um sistema rígido e formalizado de discriminação.  Ao contrário das experiências norte-americana ou sul-africana que estabeleceram regras claras de ascendência mínima para definir seus grupos sociais, nas quais, por exemplo, uma gota de sangue negro era mais que suficiente macular a suposta pureza racial dos brancos.  As formas de classificação racial e a eficácia do racismo no Brasil nutriram-se sempre das formas mais maleáveis, mais flexíveis para atingir suas vítimas, porém essas sutilezas não deixam de ser igualmente perversas e nocivas para os indivíduos e coletividades atingidos.
De qualquer forma, essa sutileza, que informa o tipo de racismo presente no Brasil, segue de mãos dadas com as premissas de ideológica “democracia racial” que pretende afirmar e defender a inexistência do racismo, precisamente porque no país não há posições ou locais sociais que negros não possam ocupar.  Não há cargo, posto de trabalho, lugar, emprego, profissão etc. Em que os negos não possam competir.  Todavia, basta uma breve observação na paisagem social para se verificar que a democracia racial ainda não chegou para os negros.  Eles são minoria nas posições de maior reconhecimento, nas profissões melhor remuneradas, nos segmentos de melhor renda etc. Especialmente a mulher negra, que ocupa uma posição social extremamente desvantajosa quando comparada com o conjunto da população branca do país. Freqüentemente ela exerce atividades de menor reconhecimento social, menor retorno salarial e de menor exigência de qualificação.
Para transformar essa situação, tão comum na paisagem social do Brasil, torna-se necessária a adoção de amplas políticas públicas que busquem minimizar as brutais desigualdades de renda, escolaridade, emprego, moradia, saúde etc. Que afetam mais diretamente os negros.  O que sugere uma substantiva transformação do desenho e da execução das políticas formuladas pelo Estado.  Transformação que garanta efetivamente à maioria da população, especialmente aquela afro-descendente, o acesso aos elementares direitos de cidadania.  Por exemplo, a ampliação das oportunidades de ensino deve vir acompanhada de mecanismos de manutenção dos estudantes nas instituições de ensino.
Pelo que se disse, reconhecer a existência e a eficácia da forma de racismo praticada no Brasil significa lutar para alcançar para a maioria da população brasileira, e para a população afro-descendente, em especial, o reconhecimento social de serem sujeitos portadores de direitos e igual dignidade humana. Reconhecimento que o racismo e a tão decantada, mas jamais praticada, democracia racial brasileira, insistem, sobretudo, em negar aos negros brasileiros.
(SILVA, Jair Batista da.  O que é racismo no Brasil. Revista Aulas. (texto no prelo).


O QUE É RACISMO
I – Definição
O racismo é a valorização, generalizada e definitiva, de diferenças, reais ou imaginárias, em proveito do acusador e em detrimento da vítima, a fim de justificar os seus privilégios ou a sua agressão.
II – Análise da atitude racista
A análise da atitude racista revela quatro elementos importantes:
Insistir nas diferenças, reais ou imaginárias, entre o racista e sua vítima.
Valorizar essas diferenças, em proveito do racista e em detrimento de sua vítima.
Esforçar-se por levar ao absoluto, generalizando-as e afirmando que elas são definitivas.
Legitimar uma agressão, ou um privilégio, efetivo ou eventual.
(MEMMI, Albert. O racismo. Tradução de Natércia Pacheco e Manuela Terraseca. Lisboa: Editorial Caminho, 2003. p. 119-120).


A cidadania nos pequenos gestos


A CIDADANIA NOS PEQUENOS GESTOS

FONTE:
Equipe de Educação do Serviço Social do Mosteiro de São Bento da Bahia
OBJETIVO:
Favorecer a reflexão sobre a responsabilidade social.
MATERIAL:
Papel ofício, lápis, folhas para flip chart e flip chart.
Desenvolvimento:
1.    Grupo em círculo, sentado.
2.    Distribuir folha de ofício e lápis para cada participante.
3.    Solicitar aos adolescentes que listem, individualmente, situações vivenciadas na semana anterior em que o exercício da cidadania deixou de ser realizado.  Exemplo: sujar o chão, danificar bens públicos, pichar etc. tempo.
4.    Formar subgrupos para partilha das situações e construção de uma lista comum, contendo as ações consideradas mais significativas. Dar duas folhas de flip chart para cada grupo.
5.    Apresentação das listas de cada subgrupo no flip chart.
6.    Plenário – discutir com o grupo as situações apresentadas, relacionando-as a questões mais amplas, como a poluição industrial, desmatamento, extinção de espécies, preservação de bens culturais etc.
7.    Fechamento: o facilitador chama a atenção para o compromisso social que deve nortear a relação do homem com o mundo e para a responsabilidade que todos devem ter com o que é público e representa bem comum.
COMENTÁRIO:
Esta atividade permite ao adolescente dar-se conta de que a cidadania é exercida a partir de pequenos atos.  Com essa consciência, torna-se possível relacionar vivências do dia a dia a situações mais amplas, de modo que o exercício da cidadania – campo dos direitos e deveres – não se restrinja a um discurso desvinculado da vida cotidiana.
O facilitador deve programar atividades cuja execução diga respeito a ações no ambiente imediato do adolescente, de modo a permitir a percepção e a consciência de que ser cidadão se refere, principalmente, à participação e atuação de cada um no meio em que vive.

(SERRÃO, M. & BALEEIRO, M.C. Aprendendo a ser e a conviver. 2º Ed. – São Paulo: FTD, 1999. p.236)

O conceito de Felicidade


O conceito de Felicidade
(Ética a Nicômaco Cap.6 e 7 - de Aristóteles (384-22 a.C.)

6.
Mas como entendemos o bem? Ele não é certamente semelhante às coisas que somente por acaso têm o mesmo nome. São os bens uma coisa só, então, por serem derivados de um único bem, ou por contribuírem todos para um único bem, ou eles são uma única coisa apenas por analogia? Certamente, da mesma forma que a visão é boa no corpo, a razão é boa na alma, e identicamente em outros casos.

Mas talvez seja melhor deixar de lado estes tópicos por enquanto, pois um exame detalhado dos mesmos seria mais apropriado em outro ramo da filosofia. Acontece o mesmo em relação à forma do bem; ainda que haja um bem único que seja um predicado universal dos bens, ou capaz de existir separada e independentemente, tal bem não poderia obviamente ser praticado ou atingido pelo homem, e agora estamos procurando algo atingível. Talvez alguém possa pensar que vale a pena ter conhecimento deste bem, com vistas aos bens atingíveis e praticáveis; com efeito, usando-o como uma espécie de protótipo, conheceremos melhor os bens que são bons para nós e, conhecendo-os, poderemos atingi-los. Este argumento tem alguma plausibilidade, mas parece colidir com o método científico; todas as ciências, com efeito, embora visem a algum bem e procurem suprir-lhe as deficiências, deixam de lado o conhecimento da forma do bem. Mais ainda: não é provável que todos os praticantes das diversas artes desconheçam e nem sequer tentem obter uma ajuda tão preciosa. Também é difícil perceber como um tecelão ou um carpinteiro seria beneficiado em relação ao seu próprio ofício com o conhecimento deste "bem em si", ou como uma pessoa que vislumbrasse a própria forma poderia vir a ser um médico ou general melhor por isto. Com efeito, não parece que um médico estude a "saúde em si", e sim a saúde do homem, ou talvez até a saúde de um determinado homem; ele está curando indivíduos. Mas já falamos bastante sobre estes assuntos.

7.
Voltemos agora ao bem que estamos procurando, e vejamos qual a sua natureza. Em uma atividade ou arte ele tem uma aparência, e em outros casos outra. Ele é di­ferente em medicina, em estratégia, e o mesmo acontece nas artes restantes. Que é então o bem em cada uma delas? Será ele a causa de tudo que se faz? Na medicina ele é a saúde, na estratégia é a vitória, na arquitetura é a casa, e assim por diante em qualquer outra esfera de atividade, ou seja, o fim visado em cada ação e propósito, pois é por causa dele que os homens fazem tudo mais. Se há portanto um fim visado em tudo que fazemos, este fim é o bem atingível pela atividade, e se há mais de um, estes são os bens atingíveis pela atividade. Assim a argumentação chegou ao mesmo ponto por um caminho diferente, mas devemos tentar a demonstração de maneira mais clara.
Já que há evidentemente mais de uma finalidade, e escolhemos algumas delas (por exemplo, a riqueza, flautas ou instrumentos musicais em geral) por causa de1 algo mais, obviamente nem todas elas são finais; mas o bem supremo é evidente­mente final. Portanto, se há somente um bem final, este será o que estamos procurando, e se há mais de um, o mais final dos bens será o que estamos procurando. Chamamos aquilo que é mais digno de ser perseguido em si mais final que aquilo que é digno de ser perseguido por causa de outra coisa, e aquilo que nunca é desejável por causa de outra coisa chamamos de mais final que as coisas desejáveis tanto em si quanto por causa de outra coisa, e portanto chamamos absolutamente final aquilo que é sempre desejável em si, e nunca por causa de algo mais. Parece que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa de algo mais; mas as honrarias, o prazer, a inteligência e todas as outras formas de excelência, embora as escolhamos por si mesmas (escolhê-las-íamos ainda que nada resultasse delas), escolhemo-las por causa da felicidade, pensando que através delas seremos felizes. Ao contrário, ninguém escolhe a felicidade por causa das várias formas de excelên­cia, nem, de um modo geral, por qualquer outra coisa além dela mesma.

(MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética. Rio Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p.40-42)